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A importância do livro 'Na contracorrente da história', de Fulvio Abramo e Dainis Karepovs, por Valério Arcary

Este é um livro de leitura instigante para aqueles que se interessam pela história da esquerda brasileira, indispensável para os especialistas, e emocionante para os trotskistas. O lugar da memória é central na luta revolucionária, e o marxismo brasileiro merece ver resgatada a sofisticada e rica produção teórica e política de uma tradição que tem um lugar na história da luta dos trabalhadores.

A luta política socialista é uma aposta na esperança. Os revolucionários que se uniram sobre a bandeira da Oposição de Esquerda animada por Leon Trotski, no final dos anos vinte do século passado, eram homens e mulheres que rompiam com o estalinismo, mas não só por razões políticas. Estavam, também, engajados em um combate moral. O estalinismo não era somente um programa. O estalinismo era um aparelho burocrático. Aparelhos burocráticos são organizações disciplinadas que colocam a defesa dos seus interesses acima de tudo.

Uma importante controvérsia ética se desenvolveu na esquerda mundial, e permanece atualíssima, sobre a articulação das finalidades com os meios. Esta discussão ética encontrou seus ecos no Brasil.

Estabeleceram-se em relação ao tema, grosso modo, três posições fundamentais:

(a) a posição da socialdemocracia que defendia que os meios são tudo e os fins nada, e se apoia na ideia empirista de que o caminho se constrói caminhando. Esta posição fez a absolutização de critérios morais imperativos e universais e, no limite, a subordinação da política à moral, uma versão que pode ser mais ou menos laicizada, sob a forma de valores ahistóricos da “natureza humana”, mas remete, em última análise, ao princípio teológico de que a moral independe da história, portanto da sociedade e dos conflitos de classe no seu interior. Sendo os imperativos categóricos kantianos inaplicáveis, tanto sob as pressões da vida cotidiana, quanto na arena das lutas de classes, quando esta se exacerba, os valores morais universais passam a ser um princípio sagrado irrevogável, porém inaplicável;

(b) a posição do estalinismo que defende que os fins justificam os meios, mas esquece que também os fins precisam ser justificados: comete assim, em nome do realismo político, o erro simétrico dos moralistas. Divide com eles o critério de que meios e fins independem uns dos outros. O estalinismo fez do vale tudo a sua escola;

(c) finalmente, a posição dos trotskistas que defende que os meios e os fins têm entre si uma relação indissolúvel. São indivisíveis, porque não se pode lutar por um fim grandioso com métodos infames. Portanto, em uma sociedade dividida em classes, o combate político é também um combate moral. Só são admissíveis meios que estejam ao serviço da supressão do poder de uma minoria privilegiada sobre a maioria explorada. Os meios que inflamam a indignação dos oprimidos, que exaltam a sua união e confiança em si mesmos, e na justeza de suas lutas. Do que se conclui que nem todos os meios são permissíveis ou válidos, e que devem ser condenados como indignos todos os procedimentos e métodos que lancem um setor dos trabalhadores contra outros, que estimulem o seguidismo cego dos chefes e, acima de tudo, o repugnante servilismo diante das autoridades, o desprezo pelos trabalhadores e suas opiniões. Não vale tudo.

Os militantes da oposição de esquerda que escreveram os documentos reunidos neste livro não eram somente uma notável e, portanto, rara geração de intelectuais talentosos, mas homens e mulheres de extraordinária integridade moral.

Lutaram nos anos trinta, simultaneamente, contra o fascismo e o estalinismo, quando nas palavras de Vitor Serge, foi a “meia noite do século”. Permanecem uma inspiração para os socialistas do século XXI.

Os documentos reunidos neste livro foram recuperados do esquecimento pelo trabalho rigoroso de Fulvio Abramo e Dainis Karepovs.

Por isso, seremos para sempre gratos.

Valério Arcary